AS VINTE CHAVES MÁGICAS E OS VINTE NÍVEIS - O Vigésimo Nível um livro, uma jornada interna, em busca daquilo que você não se deixa ver. É a descoberta, no reencontro do meu melhor como indivíduo. Clique para ler os livros. No rodapé do Blog.

sexta-feira, 26 de março de 2010

O REI DA RUA


Quando eu era “guri” em minha cidade, minha rua não tinha calçamento, e nós, os “piás” como se chama aqui no Rio Grande do Sul, adorávamos que fosse assim, mesmo por que nem sabíamos se existia outro tipo de rua.
Jogávamos bola, muitas e muitas vezes, com algo chamado de “bola” por que tinha de fato o formato de uma, mas não era necessariamente, uma bola; mas era chutada como se uma da espécie fosse.
Então naquela “poeirama” nos divertíamos e muitas vezes levávamos umas boas pancadas uns dos outros, caíamos na terra que era lisa, fina e muito compacta, que de vez em quando, passava um carro, e quando acontecia, um de nós solenemente, pegava a “bola” e colocava embaixo do braço, por dois motivos: - Um para ver aquele imenso automóvel (sim, éramos pequenos, e os carros eram duas vezes maiores que atualmente), passar desfilando no chão levantando toda a poeira possível, numa pintura nova, redonda, onde refletia nossos calções e camisetas sujas de pó um pouco acima dos pára-lamas; aquele monumento desfilava entre nós, e cada time de um lado da rua, perto da calçada; e o segundo motivo, obviamente era o de “proteger” a nossa “bola”, que estava mais para “Wilson” do filme Náufrago, do que propriamente algo para chutar. A “bola” era, de fato, alguém. Mais um no grupo. Sem ela, não tem jogo.
E um carro, passava, a cada duas ou três vezes, exagerando, quatro ou cinco vezes; por semana.
Os meses passam (sim, por que para um guri, anos são meses, parece que não terminam nunca!), e um novo amigo, chega à rua. Claro, de resto, todos ficaram apreensivos, pois se ele quisesse jogar conosco, para qual time ele iria? Sim, por que nossos pais nos ensinavam que deveríamos ser bondosos, receptivos e procurar sempre a amizade, e de fato nós não tínhamos outra forma de tratar, uma vez que por índole todas as crianças são, naturalmente, gentis; aquelas que não o são sofrem de algum distúrbio, uma neuropatia, que hoje é facilmente controlável, mas na época, infelizmente não, e muitos, daqueles que um dia foi criança, mas não gentil, não teve a oportunidade de um bom tratamento. Hoje, são os chamados “sociopatas”.
Ficamos apreensivos, mas fomos procurar o novo residente da nossa rua, éramos uns seis ou oito “piás”, nosso time era de três ou quatro para cada lado, um sempre no gol, demarcado por dois tijolos furados cada baliza.
E lá estava ele. Sorridente. Dentes branquinhos. Cabelo liso, escuro; lembro que era moreno queimado do sol, mais do que nós. Um ar superior, que na época não entendi, mas senti.
Embaixo do braço, havia “algo” também muito interessante: - Era grande, redondo, brilhante! Sim! BRI-LHAN-TE! Eu nunca, ou melhor, nenhum de nós nunca havia visto algo, “grande, redondo, brilhante”, ao mesmo tempo! O máximo que tínhamos como redondo, era pequeno e escuro, e quando chutávamos fazia um som oco como “BONC”; ou seja, era BONC pra lá, BONC prá cá, BONC prá cima e por aí afora.
Mas eu senti o ar de superior sem entender o que era, e ele lascou: - Sabem o que é isto? Não, dissemos; Uma bola OFICIAL. Fiquei “boiando”; não tinha a menor idéia do que era OFICIAL. Se a dele era OFICIAL o que era a nossa? O que me passou pela cabeça no momento, é que OFICIAL era um primo do meu pai que havia entrado no exército, e se tornara OFICIAL, pois eu ouvia muito minha mãe falar: - Artur é OFICIAL do Exercito! Bacana, respondia meu pai, vamos mandar um telegrama para ele!
Se TUDO aquilo que tava embaixo do braço dele, era um OFICIAL, a nossa então, era um, soldado raso, enfim, sei lá.
E em seguida falou: - E quem quiser jogar bola, tem que ser com a minha e tem que ser como eu gosto. Senão, não joga! Eu pensei: - Bem, então ele pode jogar lá perto da esquina, quem sabe, por que a gente já tem nossa forma de jogar. Mas não, ele queria mudar... AS NOSSAS! E já seguiu: - tu, tu e tu, ficam comigo; e vocês quatro no outro time; Ele era um pouco mais alto, apesar de magricelo, e naquele tempo, altura dava medo; hoje não; sabemos que nem sempre um corpo alto carrega muitos músculos, e não necessariamente, uma boa alma, ou um bom cérebro, casa da mente.
Simplesmente ele mudou todos os times, misturando todo mundo; mas o medo ou o receio, pelo “magrão” passou por que, ele era novo na rua, tínhamos obrigação de pai e mãe em receber bem, e acima de tudo isto, estávamos impressionados com aquele monumento que ele chamava de BOLA OFICIAL. Nossa! Será que nossos pés cascudos e com unhas quebradas, iria chutar tudo aquilo???
Sabe o que era ter uma BOLA OFICIAL há muitos e muitos (e muitos) anos atrás? Pensa; me diz; pensou? Você imaginou um videogame de última geração? Não. Mais uma chance; vai, pensa; Um computador com processador de vários núcleos, placa 3D, etc e tal? Também não; isso aí tudo, por enquanto é “fichinha”; “cacareco”; vai, sobe mais, atira longe; Um carro nos dias de hoje? Estou rindo. Também não. Vamos ver: - deixa eu dizer a você: - ter uma BOLA OFICIAL há muito e muitos (e muitos) anos atrás, era ser, vamos afirmar, era ser o dono da situação, o chefe, o boss, equivalente a um excelente emprego, com um ótimo salário e um horário digno, acompanhado de jantares e algumas namoradas; ele era nada mais nada menos que o REI DA RUA!
O REI DA RUA, até deixava dar uns chutes na bola, mas quando ele não gostava de algo, já denunciava para os nossos pais, algo que ele IMAGINAVA que não se enquadrava dentro dos seus interesses. E obviamente, como ele era ou pensava, ou queria ser, O REI DA RUA, ele PENSAVA que todos o amavam, e aqueles que diziam que o AMAVAM também pensavam que ele ACREDITAVA.
Então, crescemos; todos cresceram inclusive o “magrão”. A rua foi calçada, a quantidade de pessoas não aumentou, mas minha cidade continuou charmosa e gostosa. Nós fomos embora para estudar, mas o REI DA RUA, não; continuou no mesmo lugar, e por ali se estabeleceu. Outros piás vieram, e o REI DA RUA cresceu, pensando que MANDAVA, pensando que era AMADO, e com muitos e muitos beijos e abraços. Era fácil de diferenciar o rei da rua: - ele era (ou é) de pouca fala, silencioso, muitas vezes calado, parece triste, enfim, taciturno, mas na hora do jogo, ele se agita, e fica o gostoso de todos (é o que ele acha);
Hoje, todo REI DA RUA, ainda acha que é único proprietário daquela coisa “grande, redonda, brilhante”, mas ele esqueceu que a coisa grande, redonda e brilhante dele, ficou lá atrás no passado, embaixo do braço, e que outros que vieram para suas cidades, ou ainda aqueles que vão morar lá, ou aqui, como ele um dia foi, também possuem coisas “grandes, redondas e brilhantes”, e que são tão boas quanto a coisa “grande, redonda e brilhante dele”. Ele ainda acha que só a dele é OFICIAL, e esquece, ou não aprendeu, que OFICIAL hoje é sim um vídeo game de ultima geração, uma simpatia que se aprende no berço, e que infelizmente o REI DA RUA, ainda demonstra explicitamente uma antipatia por tudo que lhe é avesso, espontaneamente, mas geralmente, instintivamente.
O rei da rua pensa que é dono de uma coisa grande, redonda e brilhante e o mundo a sua volta, não existe. O rei da rua é afrontado em seu feudo, e pensa que a mudança de comportamento, muda a situação. Não. O que muda a situação é a forma de pensamento. O pensamento sim é capaz de mudar o comportamento, caso, ele seja real e verdadeiro.
E se o comportamento muda por que o pensamento é verdadeiro, e fraterno, o rei da rua, vira piá; dos bons;
Muito pouco ou quase nada vale para o rei da rua, um emparceiramento com o mundo místico, aquele tido como sobrenatural, mas que de fato, é onde está uma parcela de todos nós: - do lado de lá do véu e de onde emana toda a energia.
Pense quem você é: - O rei da rua traz pouco crescimento para o todo, mas muito aumento e progresso para si exclusivamente ou a “piazada” de pés descalços tem talento para ser gentil, amável, amigo e parceiro. Sabem dar a mão, até mesmo para o rei da rua, mesmo que a contragosto dele.
O rei da rua de tanto que é, acaba por roer a roupa do rei de Roma, e de tanto que rói, acaba por cortar, tudo o que tem, para comer, acaba sem ter o que fazer, sem ter com quem aprender.
Fim de jogo.
2 piás x 0 rei da rua ( e time).

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